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A Igreja dos Primeiros Cristãos · Lição 2 de 8

A Didaquê

Cerca de 9 min

Numa biblioteca de Constantinopla, um manuscrito copiado em 1056 guardava um pequeno manual cristão. Publicado em 1883, ele traz um título longo, que apresenta o texto como ensino do Senhor às nações, por meio dos doze apóstolos. Hoje o chamamos de Didaquê, que quer dizer ensino. Em poucas páginas, ele diz como viver, batizar, jejuar, rezar e celebrar.

Fontes deste trecho (2)
  1. Estatuto: Consenso acadêmico

    A Didaquê chegou até nós num manuscrito copiado em 1056, achado por Filoteu Briênios em Constantinopla e publicado por ele em 1883.

  2. Estatuto: Atestado na fonte

    O título no manuscrito é Ensino do Senhor às nações por meio dos doze apóstolos.

Antes de ler

O que você espera encontrar num manual cristão do fim do século I ou do século II?

fim do século I ou século II (datação debatida)

Não sabemos quem escreveu a Didaquê nem onde. O texto parece reunir materiais de épocas diferentes, e por isso é difícil datá-lo. As propostas dos especialistas vão de antes do ano 70 até meados do século II. A primeira parte, chamada Os Dois Caminhos, ensina a vida cristã a quem vai ser batizado. Depois vêm instruções sobre batismo, jejum, oração, Eucaristia, ministros e a reunião no domingo. O fim fala da volta do Senhor.

Fontes deste trecho (5)
  1. Estatuto: Consenso acadêmico

    O autor e o lugar de origem da Didaquê são desconhecidos.

  2. Estatuto: Debate em aberto

    A Didaquê reúne materiais de épocas diferentes, e as datas propostas vão de antes de 70 a meados do século II.

  3. Estatuto: Consenso acadêmico

    Estrutura: capítulos 1 a 6, os dois caminhos, ensinados antes do batismo; 7 a 15, batismo, jejum, oração, Eucaristia, ministros e reunião no domingo; 16, a volta do Senhor.

  4. Estatuto: Consenso acadêmico

    A primeira parte da Didaquê é conhecida como Os Dois Caminhos.

    • Kirsopp Lake, The Apostolic Fathers, vol. 1, introdução a "The Didache, or Teaching of the Twelve Apostles", 1912 · p. 305-307
  5. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 1,1 abre com os dois caminhos, o da vida e o da morte.

Did 7,1-3Autor desconhecido
[1] Quanto ao batismo, batizem assim: depois de expor previamente tudo isso, batizem em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, em água viva. [2] Se você não tiver água viva, batize em outra água; se não puder em água fria, em água quente. [3] Se não tiver nenhuma das duas, derrame água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Tradução do projeto, assistida por IA. · Grego: Lake, 1912, p. 318 e 320 · transcrição em conferência com o escaneamentoVer no acervo

Repare na ordem de preferência: primeiro água viva, isto é, corrente; depois outra água; por fim, derramar água três vezes sobre a cabeça. A fórmula é a mesma nos três casos.

Fontes deste trecho (1)
  1. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 7,1-3 manda batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, de preferência em água corrente, e admite derramar água três vezes sobre a cabeça.

Leitura da fonte · Did 7,1-3

Segundo Did 7,3, qual alternativa é dada quando não se pode batizar nas formas descritas antes?

O capítulo 8 dá ritmo à semana e ao dia. Os cristãos devem jejuar na quarta e na sexta-feira, e não na segunda e na quinta, como fazem aqueles que o texto chama de hipócritas. E devem rezar o Pai-nosso três vezes por dia, na forma que o manual transcreve, que termina com um louvor a Deus.

Fontes deste trecho (2)
  1. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 8,1 manda jejuar na quarta e na sexta-feira, e não na segunda e na quinta, como os que chama de hipócritas.

  2. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 8,2-3 transcreve o Pai-nosso, terminado com um louvor, e manda rezá-lo três vezes por dia.

Did 9,1-5Autor desconhecido
[1] Quanto à eucaristia, deem graças assim: [2] primeiro, sobre o cálice: Nós te damos graças, Pai nosso, pela santa videira de Davi, teu servo, que nos deste a conhecer por meio de Jesus, teu servo. A ti a glória pelos séculos. [3] E sobre o pão partido: Nós te damos graças, Pai nosso, pela vida e pelo conhecimento que nos deste a conhecer por meio de Jesus, teu servo. A ti a glória pelos séculos. [4] Como este pão partido estava espalhado sobre os montes e, reunido, se tornou um só, assim seja reunida a tua Igreja dos confins da terra no teu reino. Porque tua é a glória e o poder, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos. [5] Ninguém coma nem beba da eucaristia de vocês, a não ser os batizados em nome do Senhor. Pois também sobre isso o Senhor disse: Não deem o que é santo aos cães.
Tradução do projeto, assistida por IA. · Grego: Lake, 1912, p. 322 · transcrição em conferência com o escaneamentoVer no acervo

Observe a ordem, primeiro o cálice e depois o pão, e a última frase: quem pode comer e beber. Um pouco adiante, em 10,1, a oração seguinte é para depois da refeição, quando todos estão saciados.

Fontes deste trecho (3)
  1. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 9 traz orações de ação de graças sobre o cálice e sobre o pão partido, nessa ordem.

  2. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 10,1 introduz outra oração de ação de graças para depois de os participantes estarem saciados.

  3. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 9,5 reserva a eucaristia aos batizados em nome do Senhor.

Que refeição é essa?

O que o texto diz

Orações de ação de graças sobre o cálice e o pão, chamadas eucharistia, das quais só os batizados participam. Depois, outra oração para quando todos estão saciados.

Estatuto: Atestado na fonte
Uma leitura católica

O Catecismo associa Did 9,5 e 10,6 à Eucaristia ao citá-los no parágrafo sobre os nomes do sacramento. Um verbete católico de 1908 lê estas orações como feitas depois da consagração e antes da comunhão.

Estatuto: Interpretação: Catecismo da Igreja CatólicaEstatuto: Interpretação: tradição católica (Chapman, 1908)
Uma leitura reformada

Para Philip Schaff, historiador reformado, em 1885: refeição comum (o ágape) e comunhão estavam unidas e formavam a Eucaristia primitiva.

Estatuto: Interpretação: Philip Schaff (tradição reformada)
Entre os estudiosos

Não há acordo nem sobre como classificar as leituras. Exemplos: orações de uma refeição comum; a Eucaristia numa fase muito antiga; a refeição inteira chamada eucaristia (van de Sandt e Flusser). Kaše (2013) adverte que reduzir o debate a decidir se é ou não a Eucaristia estreita a pergunta: o que se discute é se estas orações se ligam à prática de onde veio o sacramento posterior.

Estatuto: Debate em aberto
Fontes deste trecho (7)
  1. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 9 traz orações de ação de graças sobre o cálice e sobre o pão partido, nessa ordem.

  2. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 10,1 introduz outra oração de ação de graças para depois de os participantes estarem saciados.

  3. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 9,5 reserva a eucaristia aos batizados em nome do Senhor.

  4. Estatuto: Interpretação: Catecismo da Igreja Católica

    O Catecismo da Igreja Católica associa Did 9,5 e 10,6 à Eucaristia ao citá-los no parágrafo sobre os nomes do sacramento.

  5. Estatuto: Interpretação: tradição católica (Chapman, 1908)

    Um verbete católico de 1908 (Chapman) lê as orações de Did 9 e 10 como feitas depois da consagração e antes da comunhão.

  6. Estatuto: Interpretação: Philip Schaff (tradição reformada)

    Philip Schaff, da tradição reformada, lê Did 9 e 10 como serviço eucarístico em que ágape e comunhão estavam unidos.

  7. Estatuto: Debate em aberto

    Os estudiosos divergem sobre Did 9 e 10 e classificam as leituras de modos diferentes (quatro, três ou sete correntes). Entre elas: orações de uma refeição comum, a Eucaristia numa fase muito antiga e a refeição inteira chamada eucaristia. Kaše considera estreita a redução do debate a decidir se o texto é ou não a Eucaristia.

Did 14,1-3Autor desconhecido
[1] No dia do Senhor, reunidos, partam o pão e deem graças, depois de confessar as suas faltas, para que o sacrifício de vocês seja puro. [2] Quem tiver uma desavença com o seu companheiro não se reúna com vocês até que se reconciliem, para que o sacrifício de vocês não seja profanado. [3] Pois este é o sacrifício de que o Senhor falou: Em todo lugar e tempo, oferecer-me um sacrifício puro; porque sou um grande rei, diz o Senhor, e o meu nome é admirável entre as nações.
Tradução do projeto, assistida por IA. · Grego: Lake, 1912, p. 330 · transcrição em conferência com o escaneamentoVer no acervo

Aparecem aqui o dia do Senhor, a confissão das faltas, a reconciliação antes da reunião e uma palavra forte: sacrifício, apoiada numa citação livre do profeta Malaquias.

Fontes deste trecho (2)
  1. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 14 manda reunir-se no dia do Senhor, partir o pão e dar graças depois de confessar as faltas, e chama isso de sacrifício puro.

  2. Estatuto: Consenso acadêmico

    Did 14,3 cita livremente Ml 1,11.14.

Que sacrifício é esse? O texto não explica. Seguem dois exemplos históricos de leitura, sem pretender esgotar as tradições. Para um verbete católico de 1908, é o sacrifício eucarístico, e os bispos e diáconos do capítulo 15 são designados justamente para ele. Para Schaff, reformado, a palavra grega também se usa para sacrifícios espirituais de louvor, e a Eucaristia é sacrifício de ação de graças e de entrega da comunidade. As duas leituras partem do mesmo texto.

Fontes deste trecho (2)
  1. Estatuto: Interpretação: tradição católica (Chapman, 1908)

    Um verbete católico de 1908 (Chapman) vê em Did 14 o sacrifício eucarístico e liga a designação de bispos e diáconos (Did 15) a esse sacrifício.

  2. Estatuto: Interpretação: Philip Schaff (tradição reformada)

    Schaff lê o sacrifício de Did 14 como sacrifício de ação de graças e de consagração da comunidade, lembrando o uso figurado de thysia para louvor.

O capítulo 15 manda designar bispos e diáconos dignos do Senhor: mansos, sem apego ao dinheiro, verdadeiros e provados. Eles prestam o mesmo serviço dos profetas e mestres. Compare com a lição sobre Inácio: nas cartas dele, cada comunidade tem um bispo, presbíteros e diáconos. Na Didaquê, os bispos aparecem no plural, e presbíteros não são mencionados.

Fontes deste trecho (2)
  1. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 15,1-2 manda designar bispos e diáconos, no plural, com o mesmo serviço dos profetas e mestres.

  2. Estatuto: Atestado na fonte

    A Didaquê não menciona presbíteros.

Verifique

Verdadeiro ou falso?

A Didaquê permite que qualquer pessoa coma e beba da eucaristia.

Verifique

Que ministros o capítulo 15 da Didaquê manda designar?

E para a fé católica? O Catecismo ensina que o batismo, feito de modo mais expressivo por imersão tripla, desde a antiguidade também pode ser conferido derramando água três vezes sobre a cabeça: o mesmo gesto exterior que Did 7,3 já admite. Remete a Did 8,3 para dizer que as primeiras comunidades rezavam o Pai-nosso três vezes por dia, e associa Did 9,5 à Eucaristia. E ensina que a Eucaristia é sacrifício porque torna presente o sacrifício da cruz; que a Missa é verdadeiro sacrifício foi definido pelo Concílio de Trento. A Didaquê não traz essa explicação: suas orações não repetem as palavras da Última Ceia nem mencionam a morte de Jesus. Ela mostra uma comunidade que reservava a eucaristia aos batizados e chamava sua celebração de sacrifício puro.

Fontes deste trecho (9)
  1. Estatuto: Ensinamento da Igreja

    O Catecismo ensina que o batismo é feito do modo mais expressivo por imersão tripla e que, desde a antiguidade, também pode ser conferido derramando água três vezes sobre a cabeça.

  2. Estatuto: Interpretação: Catecismo da Igreja Católica

    O Catecismo lê Did 8,3 como testemunho de que as primeiras comunidades rezavam o Pai-nosso três vezes por dia.

  3. Estatuto: Interpretação: Catecismo da Igreja Católica

    O Catecismo da Igreja Católica associa Did 9,5 e 10,6 à Eucaristia ao citá-los no parágrafo sobre os nomes do sacramento.

  4. Estatuto: Ensinamento da Igreja

    A Igreja ensina que a Eucaristia é sacrifício porque torna presente o sacrifício da cruz, é seu memorial e aplica seu fruto.

  5. Estatuto: Doutrina definida

    O Concílio de Trento definiu que na Missa se oferece a Deus um verdadeiro e próprio sacrifício.

  6. Estatuto: Atestado na fonte

    As orações de Did 9 e 10 não trazem as palavras da Última Ceia nem mencionam a morte de Jesus.

  7. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 7,1-3 manda batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, de preferência em água corrente, e admite derramar água três vezes sobre a cabeça.

  8. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 9,5 reserva a eucaristia aos batizados em nome do Senhor.

  9. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 14 manda reunir-se no dia do Senhor, partir o pão e dar graças depois de confessar as faltas, e chama isso de sacrifício puro.

Em resumo

  • A Didaquê é um manual cristão antigo, de autor desconhecido, conhecido por um manuscrito de 1056 publicado em 1883. Sua data é debatida.
  • Ela ensina os dois caminhos antes do batismo, admite batizar derramando água e marca jejum e oração na semana e no dia.
  • Suas orações sobre o cálice e o pão são reservadas aos batizados. Que refeição elas acompanham, e como ela se liga à Eucaristia, os estudiosos ainda discutem.
  • Ela fala de reunião no dia do Senhor, de sacrifício puro e de bispos e diáconos, sem mencionar presbíteros.
  • Para a fé católica, é testemunha antiga do batismo por infusão, do Pai-nosso rezado três vezes ao dia e da eucaristia reservada aos batizados. A Igreja ensina que a Eucaristia é sacrifício porque torna presente a cruz; a Didaquê chama a celebração de sacrifício puro, sem explicar seu sentido.
Fontes deste trecho (14)
  1. Estatuto: Consenso acadêmico

    A Didaquê chegou até nós num manuscrito copiado em 1056, achado por Filoteu Briênios em Constantinopla e publicado por ele em 1883.

  2. Estatuto: Debate em aberto

    A Didaquê reúne materiais de épocas diferentes, e as datas propostas vão de antes de 70 a meados do século II.

  3. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 7,1-3 manda batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, de preferência em água corrente, e admite derramar água três vezes sobre a cabeça.

  4. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 8,1 manda jejuar na quarta e na sexta-feira, e não na segunda e na quinta, como os que chama de hipócritas.

  5. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 8,2-3 transcreve o Pai-nosso, terminado com um louvor, e manda rezá-lo três vezes por dia.

  6. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 9,5 reserva a eucaristia aos batizados em nome do Senhor.

  7. Estatuto: Debate em aberto

    Os estudiosos divergem sobre Did 9 e 10 e classificam as leituras de modos diferentes (quatro, três ou sete correntes). Entre elas: orações de uma refeição comum, a Eucaristia numa fase muito antiga e a refeição inteira chamada eucaristia. Kaše considera estreita a redução do debate a decidir se o texto é ou não a Eucaristia.

  8. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 14 manda reunir-se no dia do Senhor, partir o pão e dar graças depois de confessar as faltas, e chama isso de sacrifício puro.

  9. Estatuto: Atestado na fonte

    Did 15,1-2 manda designar bispos e diáconos, no plural, com o mesmo serviço dos profetas e mestres.

  10. Estatuto: Ensinamento da Igreja

    O Catecismo ensina que o batismo é feito do modo mais expressivo por imersão tripla e que, desde a antiguidade, também pode ser conferido derramando água três vezes sobre a cabeça.

  11. Estatuto: Interpretação: Catecismo da Igreja Católica

    O Catecismo lê Did 8,3 como testemunho de que as primeiras comunidades rezavam o Pai-nosso três vezes por dia.

  12. Estatuto: Ensinamento da Igreja

    A Igreja ensina que a Eucaristia é sacrifício porque torna presente o sacrifício da cruz, é seu memorial e aplica seu fruto.

  13. Estatuto: Doutrina definida

    O Concílio de Trento definiu que na Missa se oferece a Deus um verdadeiro e próprio sacrifício.

  14. Estatuto: Atestado na fonte

    As orações de Did 9 e 10 não trazem as palavras da Última Ceia nem mencionam a morte de Jesus.